
Segunda-feira, Janeiro 26, 2009
CUCULIFORME
O cuco cucula
tictac-ando incerto
as horas certas
sidnei olivio
Comente: :: enviado por SIDNEI OLÍVIO - 1:51 PM
Sexta-feira, Janeiro 23, 2009
O SABOR DA MAÇÃ
A cobra sibila
no Éden: cochicha a Eva
os segredos de Adão
sidnei olivio
Comente: :: enviado por SIDNEI OLÍVIO - 2:16 PM
Terça-feira, Janeiro 20, 2009
MAR & LUA
Atraído pelo brilho sensual da lua
o mar sobe para seu mais alto degrau,
numa dança rítmica, lírica, superficial...
Em vão, tenta alcançá-la,
em ondas prateadas de desejos,
incitado por Zéfiro.
Em seu leito, Netuno agoniza...
divisa os limites oceânicos
intensificando o degredo.
Encantado, porém, segue a odisséia
numa luta contínua e incessante
contra as muralhas de rochas
a fim de transformá-las
em praias nuas e extensas:
caminho da pretendida morada.
E, então, sobre elas morrer –
incógnito e calmamente –
nos crepúsculos dos dias.
sidnei olivio
Comente: :: enviado por SIDNEI OLÍVIO - 3:37 PM
Domingo, Janeiro 18, 2009
CRÔNICA DE DRUMMOND SOBRE OS ANIMAIS
Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas
coloridas mostram animais de todos os feitios. É preciso querer bem a
eles, diz a professora, com um sorriso que envolve toda a fauna,
protegendo-a. Eles têm direito à vida, como nós, e além disso são
muito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior amigo da gente?
Cachorro faz muita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a
vaca... Todos ajudam.
- Aquele cabeludo ali, professora, também ajuda?
- Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria
e de burro de carga. Do pêlo se fazem perucas bacanas. E a carne,
dizem que é gostosa.
- Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?
- Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos
adiante. Este é o texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto,
escolham pincel de texugo. Parece que é ótimo.
- Ele faz pincel, professora?
- Quem, o texugo? Não, só fornece o pêlo. Para pincel de barba também,
que o Arturzinho vai usar quando crescer.
Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais,
não gostaria de pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a
professora já explicava a utilidade do canguru:
- Bolsas, mala, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente.
Não falando da carne. Canguru é utilíssimo.
- Vivo, fessora?
- A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz... produz é maneira de
dizer, ela fornece, ou por outra, com o pêlo dela nós preparamos
ponchos, mantas, cobertores, etc.
- Depois a gente come a vicunha, né fessora?
- Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta retirar a lã da
vicunha, que torna a crescer...
- A gente torna a corta? Ela não tem sossego, tadinha.
- Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro
listrado serve para forro de cadeira, de almofada e para tapete.
Também se aproveita a carne, sabem?
- A carne também é listrada?- pergunta que desencadeia riso geral.
- Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as
coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso
garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser comestível
por causa disto. Ah, o pingüim? Este vocês já conhecem da praia do
Leblon, onde costuma aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só
serve para brincar? Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho.
O excremento - não sabem o que é? O cocô do pingüim é um adubo
maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito da gordura do
pingüim...
- A senhora disse que a gente deve respeitar.
- Claro. Mas o óleo é bom.
- Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.
- Pois lucra. O pêlo dá escovas é de ótima qualidade.
- E o castor?
- Pois quando voltar a moda do chapéu para os homens, o castor vai
prestar muito serviço. Aliás, já presta, com a pele usada para
agasalhos. É o que se pode chamar de um bom exemplo.
- Eu, hem?
- Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro
para o living da sua casa.
Do couro da girafa Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade,
deixando os pêlos da cauda para Tereza fazer um bracelete genial. A
tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não
cauculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco
serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa. O biguá é
engraçado.
- Engraçado, como?
- Apanha peixe pra gente.
- Apanha e entrega, professora?
- Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o
peixe mas não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.
- Bobo que ele é.
- Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de
todas as maneiras. Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e
não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu, Ricardo?
- Entendi, a gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e
aproveitar bem o pêlo, o couro e os ossos.
(Texto extraído de Drummond, Carlos de. De notícias e não notícias
faz-se a crônica. Rio de Janeiro, José Olympio, 1975)
Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas
coloridas mostram animais de todos os feitios. É preciso querer bem a
eles, diz a professora, com um sorriso que envolve toda a fauna,
protegendo-a. Eles têm direito à vida, como nós, e além disso são
muito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior amigo da gente?
Cachorro faz muita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a
vaca... Todos ajudam.
- Aquele cabeludo ali, professora, também ajuda?
- Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria
e de burro de carga. Do pêlo se fazem perucas bacanas. E a carne,
dizem que é gostosa.
- Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?
- Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos
adiante. Este é o texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto,
escolham pincel de texugo. Parece que é ótimo.
- Ele faz pincel, professora?
- Quem, o texugo? Não, só fornece o pêlo. Para pincel de barba também,
que o Arturzinho vai usar quando crescer.
Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais,
não gostaria de pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a
professora já explicava a utilidade do canguru:
- Bolsas, mala, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente.
Não falando da carne. Canguru é utilíssimo.
- Vivo, fessora?
- A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz... produz é maneira de
dizer, ela fornece, ou por outra, com o pêlo dela nós preparamos
ponchos, mantas, cobertores, etc.
- Depois a gente come a vicunha, né fessora?
- Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta retirar a lã da
vicunha, que torna a crescer...
- A gente torna a corta? Ela não tem sossego, tadinha.
- Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro
listrado serve para forro de cadeira, de almofada e para tapete.
Também se aproveita a carne, sabem?
- A carne também é listrada?- pergunta que desencadeia riso geral.
- Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as
coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso
garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser comestível
por causa disto. Ah, o pingüim? Este vocês já conhecem da praia do
Leblon, onde costuma aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só
serve para brincar? Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho.
O excremento - não sabem o que é? O cocô do pingüim é um adubo
maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito da gordura do
pingüim...
- A senhora disse que a gente deve respeitar.
- Claro. Mas o óleo é bom.
- Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.
- Pois lucra. O pêlo dá escovas é de ótima qualidade.
- E o castor?
- Pois quando voltar a moda do chapéu para os homens, o castor vai
prestar muito serviço. Aliás, já presta, com a pele usada para
agasalhos. É o que se pode chamar de um bom exemplo.
- Eu, hem?
- Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro
para o living da sua casa.
Do couro da girafa Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade,
deixando os pêlos da cauda para Tereza fazer um bracelete genial. A
tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não
cauculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco
serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa. O biguá é
engraçado.
- Engraçado, como?
- Apanha peixe pra gente.
- Apanha e entrega, professora?
- Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o
peixe mas não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.
- Bobo que ele é.
- Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de
todas as maneiras. Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e
não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu, Ricardo?
- Entendi, a gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e
aproveitar bem o pêlo, o couro e os ossos.
(Texto extraído de Drummond, Carlos de. De notícias e não notícias
faz-se a crônica. Rio de Janeiro, José Olympio, 1975)
Comente: :: enviado por SIDNEI OLÍVIO - 4:58 PM
Terça-feira, Setembro 23, 2008
a flor da terra
embora não sangre
e timbre a dor em notas inaudíveis
o que fazer da flor
quando a mesma é quase morta?
simplesmente desenterrá-la
num antagônico velório?
(o odor suspenso na memória
refulge o quadro da planta emoldurada...)
na antagonia da hora
restou o vazio do vaso –
o tosco pote de barro –
onde agora
uma nova muda mora!
(instantes atrás
jardineiros perplexos
de mãos inertes
silenciavam os olhos... em prece?)
sidnei olívio
Comente: :: enviado por SIDNEI OLÍVIO - 9:18 AM
Sexta-feira, Setembro 19, 2008
BORBOLETA
depois do fastio
caminha
a lívida lagarta
ao ponto
alto
seguro
de sustentação (o galho)
à aparente latência
um transformismo mágico
em asas e cores
sidnei olivio
depois do fastio
caminha
a lívida lagarta
ao ponto
alto
seguro
de sustentação (o galho)
à aparente latência
um transformismo mágico
em asas e cores
sidnei olivio
Comente: :: enviado por SIDNEI OLÍVIO - 8:09 PM
Quarta-feira, Setembro 17, 2008
da janela
a paisagem restrita:
apenas a vegetação encobrindo o horizonte
uma folha que cai
mansamente
do mais alto galho até o chão
junta-se às outras (em decomposição)
uma ave
de passagem
não visita a árvore
apenas repousa no pouso indelével
o pensamento não se prende
em matéria alguma
rapidamente se desfaz
como a fumaça do cigarro
o pássaro voa
a tarde se extingue
mais um dia como outro
sidnei olivio
a paisagem restrita:
apenas a vegetação encobrindo o horizonte
uma folha que cai
mansamente
do mais alto galho até o chão
junta-se às outras (em decomposição)
uma ave
de passagem
não visita a árvore
apenas repousa no pouso indelével
o pensamento não se prende
em matéria alguma
rapidamente se desfaz
como a fumaça do cigarro
o pássaro voa
a tarde se extingue
mais um dia como outro
sidnei olivio
Comente: :: enviado por SIDNEI OLÍVIO - 7:23 PM
Sexta-feira, Setembro 05, 2008
3.
o ovo
a volta ao início
sempre a volta
as re-voltas
o re-começo
o ovo
a continuidade
sempre o retorno
ao princípio
sidnei olivio
Comente: :: enviado por SIDNEI OLÍVIO - 4:20 PM
Terça-feira, Setembro 02, 2008
2.
há que se desvestir
da roupagem perolada
voltar a ser grão
assumir a pequenez
e tornar-se grande
redescobrindo a essência
a intenção
da montanha
sidnei olivio
Comente: :: enviado por SIDNEI OLÍVIO - 4:42 PM
Quinta-feira, Agosto 28, 2008
ostracismo
1.
fecho a carapaça
esconderijo móvel
e imóvel permaneço
preciso ser só
neste dia
este meu gesto
de morte
de renascimento
e rebeldia
sidnei olivio
Comente: :: enviado por SIDNEI OLÍVIO - 4:33 PM




